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Em 2013 e com 39 anos de idade, encontrei-me num beco sem saída para o qual eu próprio me conduzi e do qual não tinha a mínima ideia de como sair. A minha situação profissional era insustentável:

  • não tinha o mínimo apoio da instituição onde trabalhava para as funções que desempenhava – na altura trabalhava num centro de investigação em biotecnologia, na área de apoio à gestão de projectos;
  • não tinha quaisquer perspectivas de progressão – estava congelado na mesma posição há quase 5 anos;
  • o meu trabalho era subvalorizado – talvez em virtude do objecto social da instituição ser a produção de conhecimento e de ciência e não a gestão administrativa da mesma;
  • era mal remunerado – o que é uma constante a nível nacional;
  • … e sobretudo intelectualmente pouco estimulante;

O que é que eu poderia fazer!?

Aos 39 anos, em Portugal, a realidade é que estava morto para o mercado de trabalho. Procurar outra posição com funções idênticas tornava-se mais complicado ou de todo impossivel, pelo facto de estar a viver numa pequena cidade do interior alentejano. Com duas crianças de 7 e 3 anos, qualquer decisão que tomasse tinha que ser feita com alguma ponderação.

Ponderação!? Que se lixe a ponderação!

O dia 17 de Maio de 2013 foi a gota que fez transbordar o copo. O que talvez noutro contexto não se revestisse de grande importância, na realidade e somado com toda a frustração acumulada, fez-me tomar a decisão com que há muito sonhava. Colocar um ponto final e apresentar a minha demissão, com efeitos imediatos.

E agora?

Agora era tarde para remorsos. O plano? Descobrir como é que me poderia reinventar profissionalmente aos 39.

Seria tarde demais para mudar de profissão? Haveria alguma área onde o preconceito da idade não fosse relevante? Que qualificações ou “skills” é que eu poderia reutilizar nessa nova etapa? Estas perguntas continuaram sem resposta durante algumas semanas até que por fim fez-se luz ao fundo do túnel. Porque não transformar um hobby numa profissão?

O que durante anos foram brincadeiras nos meus tempos livres a fazer websites estáticos ou em WordPress para amigos ou conhecidos (e até para a entidade da qual me tinha recentemente desvinculado), dar-me-iam alguma base para evoluir para uma carreira de programação para a web? É possível recomeçar com practicamente 40 anos?

Sou demasiado velho para me tornar “developer”?

A resposta agora é óbvia! NÃO!!!

Na altura as coisas não eram assim tão concretas e o medo e a incerteza relativamente ao futuro falavam mais alto. Com 40 anos ainda me restavam pelo menos 25 anos para fazer algo em que me revisse e que com que me sentisse útil e valorizado, ao contrário de ser infeliz e desprezado.

Ao contrário de outras indústrias, a área das TI´s é muito pouco preconceituosa relativamente ao factor idade. A questão resume-se a: tens conhecimentos para fazer o que é esperado da posição? Se a resposta é sim, então não interessa se tens 30, 49, 60 ou 25 anos de idade.

A pergunta seguinte foi … como aprofundar os meus conhecimentos de forma a conseguir uma posição na área?

O percurso

Eu dei a mim próprio o prazo de 2 anos para conseguir adquirir e/ou melhorar os conhecimentos básicos na área e algum nível de reconhecimento de qualificação. O plano? Matricular-me num curso de curta duração na instituição de Ensino Superior da minha área (IPBeja – Instituto Politécnico de Beja) e tentar fazer o máximo possível de cursos “online” (gratuitos ou não).

Hoje e em retrospectiva e sem desmerecimento para o IPBeja, tenho uma opinião ambígua sobre a utilidade do curso e se o tempo não teria sido mais bem utilizado noutro tipo de formação, mas isto será objecto de outro “post”. Não sejamos ingénuos, os cursos valem aquilo que valem e dão-nos apenas as bases. O resto do trabalho – e acreditem que é muito -, depende de nós.

Foi difícil arranjar trabalho?

A área das TI´s tem uma enorme carência de profissionais. Não podendo falar do caso concreto de Portugal na primeira pessoa, porque a minha experiência profissional em Portugal é zero, também não acredito que a situação seja consideravelmente diferente da do Reino Unido, onde vivo. Se adicionarmos à elevado procura, o êxodo de profissionais portugueses para países com melhores níveis remunerações e somarmos a isto o facto desta área ser conhecida por as posições terem uma grande rotatividade, ou seja, dificilmente alguém ficar na mesma posição por mais de 4 anos, podemos concluir que as perspectivas são melhores do que na maioria das outras áreas profissionais.

No meu caso concreto e tendo dado por terminado o tal prazo de 2 anos, decidi rumar ao Reino Unido. No total, entre elaborar currículo, responder a propostas de emprego, entrevistas (com várias fases) e a oferta de minha primeira posição júnior, mediaram cerca de 4-5 semanas. E não, não creio que tenha sido apenas um golpe de sorte.

Foi difícil a transição?

Digamos que não foi fácil. Aterrar numa posição júnior com 41 anos traz os seus desafios.

Em primeiro lugar, dada a tua inexperiência vês-te obrigado a pedir constantemente ajuda aos teus colegas, mesmo para as tarefas mais básicas. A integração num ambiente de trabalho com uma metodologia Agile, novas ferramentas de trabalho e um novo stack de tecnologias, requerem uma curva de aprendizagem que não é de todo curta.

Em segundo lugar, a quem pedes ajuda, tem practicamente metade da tua idade. Ou seja, és o júnior mais sénior da sala! O truque é tomares consciência disso, aceitares que nada podes fazer e que ninguém te recrimina por isso.

Valeu a pena?

Absolutamente!

Não começarmos a semana deprimidos porque ainda faltam 5 dias para o fim-de-semana, é um privilegio. Quando tens a sorte de trabalhar para uma empresa que reconhece o teu valor quando tu próprio dúvidas das tuas capacidades, que aposta na tua formação e te apresenta avenidas para te desenvolveres e cresceres como profissional, uma empresa que tem uma boa cultura de trabalho, então sem dúvida que valeu a pena.

Considerações finais …

Mudar de profissão é algo que não deve ser tomado de ânimo leve, sobretudo quando se está quase a meio da carreira produtiva e se tem contas para pagar. Dito isto, também ninguém deve viver deprimido por não ter reconhecimento e perspectivas de progressão no trabalho.

Para quem se encontra num impasse a nível profissional e se interroga sobre se é possível alterar o curso das coisas – sim é possível. Não se desmotivem com o factor idade e com as expressões populares de que burros velhos não aprendem línguas.

Este burro aprendeu várias: Javascript, PHP, Typescript, Angular, React, Yii, HTML, CSS, SASS, LESS, …

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